De volta para casa

Muito bem! Muito bem! Depois de uma longa e bela viagem e alguns dias de cama com uma virose brava, nada melhor do que mostrar as caras de novo.

Regina Faria de Carvalho
15/09/2010 - 14h11

De volta para casa

 

 

Mesmo que o dia aqui seja diferente de lá. Cheio de galhos retorcidos e queimadas em brasa. Assaltam-me os ipês. Ipês amarelos. Isso só pode ser coisa de brasileiro.

Na semana passada, passeava nos jardins de Monet e do Castelo de Versalhes. Um deslumbre! Depois, Milão e Suíça. A Suíça é onde os índices de suicídio são os maiores do mundo, e me perguntava: como pode alguém pensar em morrer num país como este? Lindíssimo! Cheio de lagos verdes e montanhas azuis alcançando as nuvens no céu. Tudo organizadíssimo. O ar puro, as águas límpidas, a relva verde, as vaquinhas com sinos no pescoço sem sossego para se mexerem sem serem descobertas. E tanta qualidade de vida! Impossível! Não dá pra acreditar que os suíços não vejam as maravilhas que eu continuo vendo ainda agora.

Mas os suíços são mal-humorados e infelizes. São solitários, não veem razão por que lutar. Falta-lhes ambição. Está tudo pronto e eles, a usufruírem do paraíso que não tiveram a chance de assinar com as próprias mãos.

E no auge das campanhas políticas chegamos ao Brasil! As promessas absurdas! As análises míopes e estreitas demais para uma realidade tão complexa. O que será de nós, meu Deus?

Pra piorar, veio aquela virose. Dose pra leão. Leão mesmo! Cada vômito era um leão com a boca escancarada vindo do meu estômago. E eu a regurgitar tudo o que tinha e o que não tinha dentro. Ai, que nojo! Nem dava tempo. Vinha outro e depois outro e depois outro. Não parava. Espasmos e dor! A solidão e o desamparo. Tentava conter com a mão. Elas não eram suficientes. Explodia para todo lado, sujando paredes, vaso, chão, pia. Depois sossegava. Por um instante apenas. E de repente vinha de novo, me balançando toda por dentro. Nem dava tempo para limpar o que tinha sujado antes.

Sou suja! Olha o que sai de mim? Isso também sou eu. Eu fedida, encardida. Haja amor pra resistir a tal cena! Isso é pra aprender a comer as paisagens com tanta vontade! Vá com calma, menina!

Um pouco mais tarde está tudo limpo. Estou limpa por dentro e por fora. Sinto-me tão bem agora. Parece nascida de novo. Estranhamente renovada.

E ponho os meus olhos de novo no mundo seco e gosto do que vejo. Gosto de imaginar o galho retorcido tomando a chuva como a pouco fiz no chuveiro. Se pudesse, colocaria um chuveiro debaixo de todos os pés de laranjeiras e manacás. Mas eles ficariam preguiçosos e deixariam de dar fruto e flor. Não vou torná-los suíços como prometem os políticos.

E vejo ainda a estreia de folhas verdinhas das castanheiras recém chegadas. Como podem? Em meio a tanta sequidão e queimadas, renascem com força própria. Elas se parecem comigo.

Moro no alto. Tenho visão privilegiada. Não tem mesmo jeito pra mim. Lá vou eu me intoxicar de novo nas paisagens dos campos e da cidade. Agora mesmo vejo a noite chegar, as luzes de todos os cantos da cidade acenderem depois de milhares de pássaros voarem bem a minha frente no quintal desbarrancado do vizinho, cheio de bambuzais.

Pronto! Está tudo bem de novo. Vamos começar tudo de novo.

Amanhã bem cedinho saio para trabalhar. Mas antes meus olhos vão passear. Vou ver os ipês. Os lindos ipês amarelos. Querem mesmos ser reis no seco mundo dos quintais sem varais e cercas. Avista a gente exuberantemente! Somos nós a ficar no deslumbre! E eles a nos trazer o recado.

 

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