A insustentável leveza feminina

Uma segregação silenciosa, maldosa, de que ninguém se dá conta. Parece-me uma das mais terríveis. É a negação da mulher ao sentimento do feminino – e admita-se a ambiguidade.

Regina Faria
04/08/2010 - 11h13

A insustentável leveza feminina

Quando escrevia o artigo sobre Nelson Mandela na semana passada, não me dei conta que a maior segregação na África é de mulheres. Nas tribos zulus, a mulher nasce para trabalhar e cuidar dos homens. Enquanto estes colecionam esposas que os sustentem, exploradas ao máximo.

De um extremo ao outro, o mundo discute, aponta. Falar em segregação virou moda. A UNESCO declarou a luta pela igualdade entre os sexos a prioridade para o período 2008/2013. No entanto, a feminização da pobreza segue na desigualdade da repartição da renda, no mercado laboral, nos recursos e no controle ao acesso de capitais disponíveis.

Mas hoje quero falar de uma segregação silenciosa, maldosa, de que ninguém se dá conta. Parece-me uma das mais terríveis. É a negação da mulher ao sentimento do feminino – e admita-se a ambiguidade. O abandono a tudo que se diz feminino.

Na atualidade, vemos mulheres se candidatando à Presidência da República, ocupando cargos em empresas, corporações, mídias. Porém, a condição da mulher quando pleiteia e conquista cargos importantes é estranha, vem com vírus infiltrados na pele. Ela se torna agressiva, intimidadora, voraz, ambiciosa, acusadora e ao mesmo tempo escrava de um papel que não lhe cai bem. Um verniz social cheio de silicones e plásticas. Como se o poder tivesse a cara da juventude eterna, não da longevidade saudável, bonita, com ruga, pele, história.
A identidade dessa mulher genuína está comprometida. As mulheres são cada vez menos femininas. Sem quase nenhum trato natural. Sem aquele jogo de cintura, como dizia minha avó. O fino que se só se encontra nas artes e curvas femininas.

A bandeira feminina avança. A leitura que fazemos dela, todavia, é pouco feminina. Ela não tem curvas. Não tem poesia. Falta cheiro, toque, delicadeza. E um certo companheirismo de espreita. Vem possuída por demônios da laboriosidade alienada, que teimosamente insistem na neurose da eficácia total, nota dez, a perfeição a custa da excelência ou da sensualidade forjada com trajes de mil seduções e operações. E persistem com ritmos de PAC. Sempre dispostas a renunciar a mais um fim de semana, aos afetos que não interrompam o crescimento da nação. Ponha o pé no acelerador. Dane-se a identidade. Dane-se o afeto. Dane-se a arte. Dane-se a vida!

Produzir, produzir, produzir. Dane-se o excedente! Joga-se no lixo. Vende-se na feira da pechincha. Ou manda para os países do terceiro mundo.

Para entrar no jogo, as mulheres se tornaram mais dinâmicas, deixaram à mostra a competência múltipla, uma inteligência voraz, um jeito especial de negociar para obter apoio até dos piores críticos.

Perderam em sensibilidade, tempo, adequação do espaço feminino. É assim. Vale tudo! Até mesmo curtir a solidão na velhice. Tudo por um pouco de poder e ascensão social.

Será que isso não poderia ter vindo carregado do feminino? Não teria mais graça? Mais glamour? Mais… aquela coisa que já foi moda na boca de Che Guevara e hoje é coisa brega? A tal da ternura, que não pode faltar jamais?

Do outro lado vemos o ressurgir eterno de uma princesa Diana. Uma Carla Bruni que tem a grandeza de escolher a simplicidade e renuncia a ser a estrela por um momento, para poder estar a serviço. Nelas, menos vale mais.

E Adélia me empresta palavras quando diz: … as mulheres são complicadas. Homens são singelos. Fica singela também mulher.

Coluna Interativa: Participe!

Envie e-mail para: [email protected]
 

Patos Notícias


Patos Notícias


Patos Notícias