Crônica: A vida é feita de histórias ou stories?

Nesta crônica, o jornalista Caio Machado aponta os malefícios do uso excessivo das redes sociais no cotidiano.

Caio Machado
19/02/2020 - 16h14

Crônica: A vida é feita de histórias ou stories? Agostine Braga / Imagem Ilustrativa

Seguia para o jornal de moto como toda manhã rotineira. Faltando poucas quadras pra chegar, me deparo com um veículo utilitário esportivo, cuja condutora poderia ser vista pela janela traseira empunhando um smartphone prestes a tascar uma selfie, que provavelmente abasteceria o feed de stories do Instagram.

De imediato já saquei que os dois semáforos remanescentes para chegar até o escritório seriam mais demorados que o usual. Uma mão erguia o celular e outra fazia o velho símbolo hippie de “paz e amor”. No primeiro sinal verde, dei uma leve buzinada para a pessoa distraída interromper a foto e seguir em frente.

Por um infortúnio já esperado, viramos na mesma esquina e ela prosseguiu na minha frente, conduzindo o veículo lentamente, o que fez com que o próximo semáforo fechasse. A tentativa de tirar a foto continuou, enquanto ela dirigia o veículo sem as mãos. O sinal ficou verde e nada do veículo da moça andar.

Buzinei longamente pela última vez e ainda levou alguns segundos até que a motorista arrancasse. Ironicamente estacionamos no mesmo local e por um breve instante pensei que iria ter de compartilhar o elevador do prédio com a tal alma. Por sorte minha, ela seguiu outro destino, mas não cedeu em me fitar com um olhar de reprovação.

Não é novidade pra ninguém que dirigir mexendo no celular é uma infração gravíssima. Nem é novidade que todo mundo ao nosso redor faça isso... e boa parte de quem está lendo também comete tal ato. Dirigir sem usar as mãos é mais uma infração. E o motivo óbvio disto penalizar alguém é tornar o trânsito ainda mais perigoso.

Deixando a obviedade das leis de trânsito de lado, o que mais me entristece é a constante necessidade de reafirmação na vida virtual consequente do vício que temos em utilizar redes sociais. Por que diabos alguém precisa validar o dia com uma foto repetitiva que durará apenas segundos em um aplicativo?

Quantos acidentes provocamos ao deslizar o dedo pelo Instagram? Quantas pessoas deixamos de dar atenção ao responder outras pelo WhatsApp? Quantos shows deixamos de assistir em tamanho real só para transmitir em telas de seis polegadas e mostrar para os outros que estávamos lá? Ser e estar se tornou algo bastante subjetivo na internet 3.0.

No episódio “Smithereens” da série britânica Black Mirror, um homem sequestra o funcionário de uma rede social para conseguir falar com o criador da mesma. Após alcançar o objetivo, ele diz que armou tudo só para dizer a ele que devido ao vício no aplicativo, distraiu no volante e colidiu em outro veículo culminando na morte da própria esposa.

O criador justifica que perdeu o controle da rede social, e que os demais envolvidos fazem de tudo para torna-la cada vez mais viciante e “necessária” nas vidas dos usuários. Levando o caso para a vida real, Mark Zuckerberg criou o Facebook e comprou o WhatsApp e o Instagram mantendo um monopólio da vida social de bilhões de pessoas em todo o mundo!

Não culpo a motorista do SUV por querer registar a própria vida e exibi-la aos amigos e seguidores como se estivesse num próprio Big Brother. Culpo o caminho maligno que as corporações tomam com as redes sociais, tornando os usuários em meros geradores de algoritmos para vender produtos e zumbis do próprio ego.

A série da Netflix é conhecida pela crítica ferrenha à tecnologia na vida humana, mas no fim das contas, imagens dos episódios terminam num feed do próprio Twitter com os dizeres “crítica social foda”. E as vidas seguem, todos compreendem dos malefícios que a vida virtual carrega, mas ninguém quer abrir mão de manipular a própria narrativa por postagens.

Pela primeira vez podemos escolher o que as pessoas irão ver de nós. Somos nosso próprio gatekeeper (fator que determina o que é noticiado nos jornais).  E fica impossível abrir mão de tirar uma selfie quando estamos nos sentindo bonitos ou comendo algo delicioso demais para não parar no feed do Facebook.

Já dizia o filósofo francês Michel Foucault, “A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível”. Provavelmente eu agora irei publicar esta crônica nas minhas redes sociais e ficar mais preocupado com o número de curtidas que irei receber do que com o debate ou reflexão que isto poderia gerar...

 

Caio Machado é redator do Patos Notícias e bacharel em Jornalismo pela Universidade do Estado de Minas Gerais

Agostine Braga é mestre em Ciência da Literatura pela UFRJ e fotógrafo de rua. Mais fotos em instagram.com/agostinebraga/

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