Caí num buraco no asfalto em Patos de Minas após sair para pagar o IPVA

Escrita durante as férias do jornalista Caio Machado, a crônica tragicômica narra um pouco sobre o pesadelo cotidiano que assola os patenses.

Caio Machado
05/02/2020 - 15h24

Caí num buraco no asfalto em Patos de Minas após sair para pagar o IPVA Imagem Ilustrativa: Caio Machado

No começo da semana fui com minha namorada até a Caixa Econômica Federal para que ela finalmente pudesse autorizar transações online pelo smartphone. Por meses fomos até a agência da Rua Olegário Maciel para pagar as contas dela no caixa eletrônico e o percurso não poderia ser menos tortuoso.

Os terminais não colaboram em nada, pois são antigos, desgastados e extremamente lentos. A CEF deve ser a única agência bancária da cidade que ainda não possui sistema touchscreen nos caixas eletrônicos. E pensar que até o micro-ondas da minha avó dispõe de tal recurso tecnológico, que pasme, foi criado em 1965 por um engenheiro inglês de nome Eric Arthur Johnson.

Pelo fato de dispor de apenas uma hora de almoço, era impossível para minha namorada sair e autorizar o celular na agência da Caixa. Imagino que todo patense saiba da demora colossal que é o atendimento no local. Foi preciso que ela estivesse em férias para que pelo menos uma hora do dia fosse desperdiçada em função disso, o que seria impossível enquanto ela estivesse trabalhando.

A cerimônia de desbloqueio do aplicativo começa na parte externa da agência, com uma fila consideravelmente longa para tirar a senha do atendimento. Como empecilho, pessoas desinformadas ocupam filas em que não deveriam estar e prostram a espera. Após a retirada da senha, mais pessoas desinformadas empacam a porta giratória por não se desfazerem dos pertences metálicos. Pior do que não possuir touchscreen é, em pleno 2020, não se inteirar desta prática tão corriqueira em bancos.

Já dentro da agência, o inferno (literal) está na falta de assentos e de ar condicionado, que volta e meia se encontra quebrado. O calor é insuportável e parece até que não circula nem um metro cúbico de oxigênio naquele recinto. Pessoas (mau intencionadas ou incapazes de interpretar figuras simplórias e óbvias) ocupam assentos destinados a idosos, gestantes e portadores de necessidades físicas, sem se enquadrarem em nenhum dos requisitos.

Queria culpar apenas o governo pela precariedade da CEF de Patos de Minas... Mas após citar os exemplos avistados no local em menos de dez minutos, fica constatado que o ser humano não colabora em nada, e obviamente que o governo é composto por espécimes de homo sapiens também. Logo, isto é apenas um reflexo dos clientes do banco. O que torna tudo ainda mais tragicômico.

Uma hora após o atendimento, o calor e o ar abafado parecem ser mais toleráveis e a serotonina liberada a cada chamada da senha torna a espera mais confortável ou apenas satisfatória. O atendente, nada cordial e robótico, não é muito ágil ao cumprir a sina. Não o culpo, precisei tolerar aquele ambiente insípido por apenas uma hora, e ele, pobre infeliz, o atura diariamente, por dezenas de horas semanais.

Vou resumir como o problema foi resolvido: Após assinar um documento no interior do banco, é necessário autorizar a assinatura digital num caixa eletrônico, abrir o aplicativo da CEF no smartphone e solicitar acesso, para novamente voltar ao caixa eletrônico e de novo, autorizar o pedido de autorização?!?! Dá para ser menos burocrático e imbecil, ou está difícil?

As vezes eu penso que a Caixa Econômica Federal é um mini-purgatório criado pelo governo para sodomizar a população. Pois não dá para entender como uma das instituições financeiras de maior lucro no país não consegue ser minimamente eficaz. Novamente, é o tal reflexo do brasileiro. Esqueça a ideia de purgatório, a Caixa nada mais é do que um boteco mal gerido, mas mesmo assim, sempre frequentado. Todo mundo precisa dele, seja para receber o PIS ou FGTS, seja para beber uma Skol num copo imundo.

No Banco do Brasil, empresa da qual sou correntista, é necessário apenas instalar o aplicativo no celular, acessar com o número de conta e senha e solicitar acesso no caixa eletrônico. Na agência, você saca o celular, escaneia um QR Code e corre pro abraço, paga, transfere e o diabo, tudo em questão de segundos. Precisei narrar este martírio todo, sabe-se lá quem leu esta crônica até aqui, para dizer que o aplicativo do BB não realiza o pagamento do IPVA.

Quem leu o título do texto já sabe o que passei e após quase uma lauda e meia do Microsoft Word eu sequer mencionei o problema que assola a cidade e me fez querer escrever sobre durante minhas férias, 1h30min da madrugada. Resumindo de novo: as ruas da cidade são lastimáveis, estão intransitáveis, todo mundo não aguenta mais, e isto nunca irá mudar. Já perdi as esperanças, e se eu fosse vocês, também já teriam perdido.

Fui até uma agência lotérica pagar o imposto maldito, que supostamente deveria garantir asfalto de qualidade, e ao voltar para casa, passei dentro de um buraco (reincidente, já que todos os buracos da cidade são sazonais, vão e voltam, que nem ioiô de criança dos anos 90). Felizmente, eu conduzo minha scooter que nem uma lesma pelas ruas da cidade, já que é impossível apertar a mão neste campo minado. Não caí e a moto provavelmente não sofreu muito.

O que caiu mesmo foi o restolho de confiança que eu ainda poderia ter nas instituições públicas. Em 2012, quando fiz faculdade de jornalismo em Frutal, um professor circulou de cal 72 buracos em uma das ruas da cidade e ainda escreveu pomposas siglas “IPVA” ao lado de cada um deles. O problema foi resolvido após a repercussão nacional que o fato ganhou na mídia e a rua se tornou uma das melhores da cidade. Quem sabe alguma autoridade se comova com esse meu texto e algo melhore. Duvido muito.

Patos Notícias


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