Você pode estar estimulando a violência. E sem saber disso.

Neste artigo da coluna Ciência e Comportamento, o psicólogo Esequias Caetano debate sobre os limites da liberdade de expressão e discurso de ódio em publicações da internet.

Esequias Caetano
25/11/2019 - 15h12

Você pode estar estimulando a violência. E sem saber disso.

Andrew Marantz, colunista do The New York Times, publicou recentemente uma discussão sobre a tênue linha separando liberdade de expressão e discurso de ódio. No artigo Free Speech is Killing Us (A Liberdade de Expressão está nos Matando) [1], o jornalista faz referência à lei americana – que garante a liberdade de expressão –, ao mesmo tempo em que relata atos de violência estimulados ou incitados pelo discurso de ódio online. A conclusão do autor é bastante clara:

“Usar ‘liberdade de expressão’ como argumento [para justificar discurso de ódio] é tão intelectualmente desonesto quanto moralmente falido”

E ele prossegue:

“A liberdade de expressão é um valor fundamental... Mas não é o único. Como todos os outros valores, ele deve ser equilibrado com os outros, como igualdade, segurança e participação democrática robusta”

Acredito que com exceção de alguns radicais, poucos discordariam disso. A maioria das pessoas me parece, sinceramente, a favor da igualdade, da segurança e da democracia. Mesmo aqueles que defendem a instauração de um regime militar parecem fazê-lo na esperança de que isso reduziria a criminalidade e a corrupção, o que, consequentemente, ampliaria a liberdade e a segurança do cidadão comum. O debate sobre a validade ou não de um regime militar como meio de melhorar o país foge ao escopo deste texto. O que nos interessa é: a maioria das pessoas realmente parece ter boas intenções.

As discordâncias parecem ser maiores no que diz respeito ao quanto as pessoas acreditam que palavras ditas na internet são capazes de estimular atos de violência no mundo offline. A lógica e o conhecimento que temos a respeito de como o comportamento humano funciona indicam que sim, mas o que as pesquisas sobre o tema nos dizem?

Um estudo publicado no The British Journal of Criminology [2], em julho de 2019, buscou responder à pergunta. Os autores cruzaram dados de crimes offline registrados pela polícia, censo governamental e análise de publicações odiosas no Twitter para verificar se existia associação entre a quantidade de publicações de ódio online e a ocorrência de crimes religiosos e raciais em Londres. Foram levadas em consideração apenas postagens realizadas por pessoas que se encontravam dentro da cidade de Londres e que continham postagens expressando ódio contra minorias raciais e religiosas.

A conclusão dos pesquisadores foi que existe uma associação forte entre a quantidade de publicações com conteúdo odioso e o aumento de crimes violentos, de assédio e outras ações danosas contra as mesmas pessoas e grupos que foram alvo das publicações. Eles explicam, ainda, que essa associação existe independente da ocorrência de “situações gatilho”, o que significa que a violência acontecia gratuitamente, sem que os alvos tenham feito algo que provocasse os agressores (ex.: tenham cometido algum crime ou ato de violência anteriormente).

Dito isso, permanece a questão: de que maneira o que é postado na internet pode influenciar o comportamento offline? É bastante simples: o que lemos, ouvimos e assistimos na internet influencia nossas crenças e nossos sentimentos sobre o mundo [3]. Por exemplo, se vemos muitas publicações relacionando a população LGBTQI+ àquilo que consideramos inaceitável socialmente, àquilo que temos medo ou que nos gera raiva ou sofrimento, naturalmente começamos a sentir raiva, medo ou rejeição em relação a esta população. O mesmo processo acontece com qualquer outro grupo ou pessoa. Na época das eleições [e ainda hoje], por exemplo, eleitores de um lado e de outro frequentemente compartilhavam conteúdos atribuindo crimes, corrupção e atos reprováveis aos votantes do partido da oposição. O resultado disso foi o aumento da violência entre os dois lados [4].

Existem evidências [5] também de que o discurso de ódio na internet funciona como uma espécie de permissão ou prova social de que atitudes violentas são aceitáveis (ex.: se vejo muita gente falando que deseja eliminar algum grupo, então isso parece aceitável); acostuma as pessoas a ideias sobre agressão (ex.: passa a ser normal pensar em agredir alguém ou um grupo, então, pensamentos do tipo se tornam mais frequentes e passam a ser os primeiros a surgir quando há oportunidade); recompensa pessoas que tem comportamentos agressivos (ex.: se vejo alguém sendo admirado por agredir um grupo ou pessoa da oposição, aprendo que isso é desejável) e pune vozes de objeção (ex.: aprendo que pessoas que são contrárias a manifestações agressivas são rechaçadas, portanto, menos provavelmente discordarei).

Isso significa que cada pessoa que publica ou compartilha qualquer conteúdo com cenas de violência contra uma pessoa ou grupo de pessoas, cada pessoa que expressa admiração por alguém que age de maneira violenta e cada pessoa que compartilha algo que associe alguém ou um grupo específico a características socialmente indesejáveis está contribuindo para a piora da violência no Brasil. Mesmo que a intenção seja outra, a consequência pode estar sendo esta. Não importa se o conteúdo compartilhado é verdadeiro ou falso, o resultado parece ser o mesmo.

Curiosamente, tentar combater o discurso de ódio respondendo e criticando postagens odiosas também tende a incentivá-lo. O algoritmo das redes sociais faz com que postagens mais comentadas, compartilhadas ou curtidas sejam vistas por um número maior de pessoas; então, se comentamos estas postagens, fazemos com que tenham um alcance maior.

Para combatermos o discurso de ódio online podemos estimular (comentar, compartilhar, curtir) publicações alternativas, com conteúdos neutros ou positivos. Isso ampliaria o alcance destas postagens, além de incentivar os usuários das redes a realizarem mais postagens deste tipo. Podemos (e devemos) também denunciar publicações com discurso de ódio na própria rede social para que elas sejam analisadas e apagadas. A Safernet (http://new.safernet.org.br/) também tem um canal para denúncia de crimes online. Situações de violência também podem ser denunciadas pelo Disque 100, número do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos dedicado a receber denúncias da população em geral.

 

Esequias Caetano é Psicólogo Clínico e Consultor em Saúde Mental. É especialista em Psicologia Clínica (ITCR/Campinas), pós-graduando em Neurociências e Comportamento (PUCRS/ Porto Alegre). Possui Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética pelo Behavioral Tech – A Linehan Institute Training Company. Já co-organizou dois livros e é fundador do Portal Comporte-se: Psicologia e Análise do Comportamento. Atende adultos na Ello: Núcleo de Psicologia e Ciências do Compotamento, em Patos de Minas/MG. Contato: [email protected]

 

MATERIAL CONSULTADO

[1] Marantz, A. (2019). Free Speech is Killing Us: Noxious language online is causing real-world violence. What can we do about it?. Link: https://nyti.ms/35xuP5t

[2] Williamns, M. and Cols. (2019). Hate in the Machine: Anti-Black and Anti-Muslim Social Media Posts as Predictors of Offline Racially and Religiously Aggravated Crime. Link: https://bit.ly/2OxtbJW

[3] Todorov, J.C., Martone, R.C., & Moreira, M.B. (eds.). (2005). Metacontingências: Comportamento, Cultura e Sociedade

[4] Venturini, L. (2018). A violência na Eleição. E o efeito do discurso dos candidatos. Link: https://bit.ly/35xvt2T

[5] Bojarska, K. (2018). The Dynamics of Hate Speech and Counter Speech in Social Media: Summary of Scientific Research. Link: https://bit.ly/2OKki02

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