Você é apaixonado por seu trabalho? Cuidado!

Neste artigo, o Psicólogo Esequias Caetano aborda a importância de estarmos conscientes de nossos limites mesmo quando fazemos o que amamos.

Esequias Caetano
04/07/2019 - 11h14

Você é apaixonado por seu trabalho? Cuidado!

A frase “faça o que ama e você não terá que trabalhar um único dia na vida” se tornou um mantra comum em palestras motivacionais e processos de Coaching contemporâneos. E em muitos sentidos, ela está correta: poucos discordariam que é muito, muito melhor e mais saudável trabalhar fazendo aquilo que amamos fazer. Na verdade este é o sonho de muitas pessoas, que dia após dia, se veem obrigadas a desempenhar tarefas que detestam para conseguirem sustentar a casa e pagar as contas no final do mês. Ao mesmo tempo, esta mesma paixão pode se tornar uma enorme armadilha capaz de conduzir ao adoecimento mental.

Mas como assim? Ser apaixonado pelo trabalho não tem apenas um lado bom?

De acordo com o artigo Understanding contemporary forms of exploitation: Attributions of passion serve to legitimize the poor treatment of workers, publicado no Journal of Personality and Social Psychology [1] em abril de 2019, existe também um lado bastante ruim nisso. A publicação apresenta as conclusões de sete pesquisas e uma meta-análise que indicaram que trabalhadores “apaixonados pelo trabalho” são mais propensos a sofrerem exploração, e pior que isso, a não percebê-la. Os pesquisadores chamaram o fenômeno de “legitimação da exploração pela paixão”.

Basicamente, trabalhadores apaixonados pelo trabalho são vistos pelos empregadores e pelas pessoas em geral como mais disponíveis e dispostos a executar tarefas extras sem serem remunerados ou devidamente recompensados por isso. De acordo com a pesquisa, as pessoas acreditam que esses trabalhadores se ofereceriam voluntariamente para realizar atividades que não fazem parte de suas atribuições caso tivessem oportunidade e que a possibilidade de fazer a tarefa seria, em si própria, suficientemente recompensadora para eles – afinal, são apaixonados pelo que fazem.

Em conjunto, estas crenças levam os gestores a entenderem que está tudo bem pedir aos apaixonados pelo trabalho que cumpram horas extras não remuneradas, trabalhem aos finais de semana, desenvolvam tarefas que não compõe o quadro de funções de seus cargos, aceitem insultos e cobranças excessivas, entre outras coisas. É algo como: “ele/ela gosta muito do que faz, então não vai se importar de fazer ‘só mais essa coisinha’”, ou pior, “isso para ele/ela não é trabalho, vai tirar de letra”.

O mais grave é que, na maioria das vezes, o próprio trabalhador não percebe a exploração. A paixão pode cegar, levando-o a acreditar que ao assumir demandas excessivas poderá se destacar profissionalmente, conquistar uma promoção ou um aumento no salário no futuro. De fato, muitas vezes o reconhecimento vem, mas apenas em forma de elogios e mais demandas, que na maioria das vezes são interpretadas pelo trabalhador como sinais de confiança de seus gestores. De acordo com os autores do estudo, é esta ausência de benefícios concretos para o trabalhador, como aumentos reais na remuneração, bonificações, prêmios, folgas ou outros tipos de vantagens tangíveis que configura a exploração. Neste sentido, quando o trabalhador é devidamente recompensado por seu esforço ele não estaria sendo explorado.

Esses dados nos colocam diante de uma situação delicada. Por um lado, ninguém duvida que ser apaixonado pelo que faz é bom. Me arrisco a dizer que para muitos brasileiros isso seria considerado um luxo, especialmente tendo em vista os índices altíssimos de desemprego que temos experimentado no país. Por outro lado, essa mesma paixão favorece para que o trabalhador seja vítima de exploração, e consequentemente, sofra de um risco maior de adoecer mental e fisicamente. E agora?

Acredito que a saída está em prestar atenção ao que realmente está acontecendo em sua relação com o trabalho. Você é recompensado de maneira concreta por sua dedicação? Ou apenas recebe apenas elogios, reconhecimento e promessas de que colherá os frutos em um futuro distante? Não que os elogios e o reconhecimento não sejam importantes. Eles são! E muito! Mas o trabalho precisa ser devidamente recompensado, também.

Um efeito frequente da dedicação excessiva ao trabalho, comum entre os apaixonados pelo que fazem, é o Burnout. Seus sintomas são outro sinal de alerta, portanto. Observe se você tem se sentido constantemente cansado, irritado, com dificuldades de concentração, com a sensação de que não consegue produzir mais como antes, com dificuldades de se desligar do trabalho durante os períodos de descanso (finais de semana, férias, noite, etc.) ou com dificuldades para se levantar de manhã e ir trabalhar. Se sim, procure pela ajuda de um psicólogo.

Em muitas ocasiões o envolvimento excessivo com o trabalho ou o acúmulo de demandas podem ser resolvidos com mudanças de atitude em relação ao trabalho. Aprender a dizer não, aprender a se desligar do trabalho quando chegar em casa, aprender a delegar tarefas (se isso for possível para seu cargo), aprender a estruturar a rotina ou aprender a não se cobrar exageradamente seriam excelentes começos.

 

Material Consultado

[1] JY, K., Campbell, T., Sheperd, S. and Kay, A. (2019). Understanding contemporary forms of exploitation: Attributions of passion serve to legitimize the poor treatment of workers. Journal of Personality and Social Psychology. Recuperado em 30 de junho, 2019, de: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/30998042?_ga=2.181566945.733355176.1560286827-549484681.1560286827

 

Esequias Caetano é Psicólogo, Especialista em Psicologia Clínica (ITCR/Campinas, SP), com Treinamento Intensivo em Terapia Comportamental Dialética (Behavioral Tech - A Linehan Institute Training Company/ Seattle, WA) e cursa Especialização em Neurociências e Comportamento (PUCRS/ Porto Alegre, RS). Fala sobre Comportamento e Cultura.