E como ficamos ao perder alguém que amamos?

Os artigos da coluna Ciência e Comportamento estão de volta e o psicólogo Esequias Caetano fala sobre a dor de perder alguém por suicídio.

Esequias Caetano
15/05/2019 - 15h08

E como ficamos ao perder alguém que amamos?

Sempre que perdemos alguém que amamos, nós sofremos. Essa sofrimento pode ser experimentado de formas diferentes, dependendo de nossa história, do que aprendemos sobre como nos relacionar com nossas emoções, de nossas crenças sobre a morte e de como era nosso vínculo com a pessoa que se foi. Alguns de nós experimentam tristeza intensa, outros podem sentir raiva, ou medo, ou alívio, ou culpa. Algumas pessoas se fecham, se distanciam e parecem não estar sentindo nada, e essas, provavelmente são as que mais me preocupam!

Se essa perda é por suicídio o sofrimento é ainda maior. Além de experimentar a dor que experimentaríamos diante de qualquer morte, ainda experimentamos o forte impacto de algo inesperado e extremamente difícil de compreender. A cabeça dos sobreviventes (é realmente esse o termo que se usa) costuma ficar cheia de questionamentos e o coração se enche de emoções que muitas vezes parecem estar em conflito. Esses questionamentos, em geral, giram em torno de temas como “como eu não percebi?”, “por que eu não fiz nada?”, “ela/ele não confiava em mim pra me pedir ajuda?”, “será que aquela minha atitude pode ter contribuído para essa morte?”, “como assim? Ela/ele ‘tava’ tão feliz ontem”. São perguntas perigosas, que nunca levam a uma resposta definitiva que traga tranquilidade. Ao contrário disso, produzem culpa, medo, ansiedade, angústia e podem inclusive acabar com a capacidade de seguir em frente. É como uma areia movediça: quando mais se mexer ali dentro, mais afunda.

É importantíssimo que aqueles que estiverem mergulhando nesse ciclo de questionamentos aprendam a sair dele. Existem alguns passos que podem ajudar. O primeiro, claro, é perceber que está pensando demais. A regra dos dois minutos pode set útil: sempre que estivermos pensando por mais de dois minutos em algo diferente do que estamos fazendo, provavelmente estamos ruminando/”remoendo”. Isso já aconteceu com você? É provável que sim, pois acontece com todos nós. O segundo passo é decidir parar, conscientemente e com firmeza. Diga a si mesmo: “eu não vou ficar pensando nisso”. Por fim, o terceiro passo é usar os sentidos: escolha qualquer objeto que esteja à sua frente e explore-o, tente identificar e descrever mentalmente todas as características dele, como quais cores ele tem, que sons emite quando bate nele, que cheiro ele tem, qual o formato dele, como ele é usado, que diferenças existem entre as partes desse objeto e assim por diante. Depois disso, faça algo que te dê prazer.

Existe algo que precisa ser esclarecido sobre questionamentos como “como não percebi?” e “por que não fiz nada?”. Na Psicologia temos pesquisas sobre isso. Essas pesquisas indicam que, em geral, as pessoas próximas àquela que se suicidou não percebem por duas razões em particular:

  1. A pessoa que se suicidou não expressou suas intenções sobre suicídio e seu sofrimento. Isso pode acontecer porque ela não queria preocupar ninguém, porque ela não sabia como expressar essas emoções, porque ela tinha um jeito mais reservado desde muito antes ou por várias outras razões.

  2. Ainda que tenhamos notado algumas coisas, não traduzimos estes sinais como indicativos de risco. A maioria de nós já deve ter tido a experiência de assistir a um filme, novela ou seriado e só no final ter conseguido compreender coisas que aconteceram lá nas primeiras cenas. É a mesma coisa: no momento em que vimos aqueles comportamentos nós não sabíamos o desfecho final e, consequentemente, não tínhamos como conectar uma coisa com a outra. Além disso, todos nós confiamos que nada vai acontecer, afinal, estamos acostumados a ver aquela pessoa ali do nosso lado todos os dias, a conversar com ela, a vê-la sorrir, então é difícil imaginar que algo pode acontecer.

Tendo isso em vista, não faz sentido ficar se questionando. Apenas quem possui treinamento específico para identificar pessoas que estejam pensando em suicídio consegue ligar uma coisa com a outra antes do desfecho final, e a maioria das pessoas, não possui esse treinamento. De fato, é possível aprender um pouco sobre o assunto lendo em sites de saúde mental. Aqui nesse link, por exemplo, existem informações importantes sobre como reconhecer os sinais e como ajudar alguém que esteja sofrendo muito: https://www.ellopsicologia.com.br/prevencao-ao-suicidio/

E sabe aquele monte de emoções fortes que parecem tomar conta da gente? É normal. Chamamos isso de luto. Não adianta tentar não senti-las. Se você é feito de carne e osso, você vai sentir. O essencial é saber como passar por elas. Algumas coisas que podem ajudar é chorar quando der vontade. Chorar faz bem. É como se tirássemos do peito aquela pressão que surge em situações assim. E é importante também – muito, muito importante! – conversar com alguém que saiba ouvir. O simples fato de falar pode ser bastante libertador. Quando falamos do que sentimos, nossa cabeça organiza as emoções e isso diminui um pouco a sensação de confusão mental que experimentamos. Se quem estiver ouvindo não souber ouvir, você pode simplesmente dizer: “olha, preciso conversar, mas não precisa me dizer nada... Só preciso de alguém que possa me ouvir e estar comigo agora...”. O que acha de fazer uma lista com umas duas ou três pessoas com quem poderia conversar?

Outra coisa importante em situações assim é continuarmos a cuidar de nós. O luto e todas as emoções que o acompanham são normais, mas se abrirmos mão de fazer aquilo que é importante para nós e aquilo que nos faz bem, corremos o risco de desenvolver problemas maiores no futuro. Como pode ser difícil organizar a cabeça no meio do luto, pode ser útil pegar um papel e fazer nele uma lista de 10 coisas que nos fazem bem, e depois, ir executando essas coisas uma por uma. Podem (e devem) ser coisas simples e fáceis de fazer. No meu caso, por exemplo, eu colocaria coisas como ouvir músicas animadas, caminhar no parque do mocambo, conversar com um amigo sobre assuntos aleatórios, brincar com meu cachorro, comer macarrão, etc. E você? Quais 10 coisas você colocaria? O que acha de construir uma lista?

As vezes o impacto da perda é tão grande que pode acontecer de também termos pensamentos sobre suicídio, e se acontecer, alguns cuidados a mais precisam ser adotados. O primeiro deles é entender que pode acontecer de termos esses pensamentos quando o sofrimento é muito grande. Não é preciso se desesperar diante deles. A questão central, porém, é ter clareza de que eles são apenas pensamentos que podem fazer parte desse tipo de experiência e que SUICÍDIO NÃO É UMA SOLUÇÃO. Se dermos muita atenção a esses pensamentos eles tendem a se fortalecer. Ao invés de dar atenção a eles, é preciso utilizar estratégias como as que citei anteriormente no texto. Além disso, se lembrar de novo: suicídio não é uma solução. Se você chega, de fato, a pensar no suicídio como uma solução para o sofrimento, saiba que mesmo que você não tenha outras esperanças, EXISTEM OUTRAS SAÍDAS e elas podem ser muito, muito efetivas.

Uma das outras saídas que eu recomendaria de imediato é buscar pelo apoio de profissionais da Psicologia e da Psiquiatria. Existem tratamentos muito bons para pessoas que sofrem intensamente e esses tratamentos são realmente efetivos em ajudar a construir vidas valiosas. Outra coisa importante a se fazer se os pensamentos estiverem fortes é entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), clicando nesse link: https://www.cvv.org.br/. Além disso, peça ajuda a alguém de sua confiança. Conte a essa pessoa sobre o que você tem passado e peça que ela te ajude a encontrar apoio profissional. Oriente-a a dar uma olhada neste link (https://www.ellopsicologia.com.br/prevencao-ao-suicidio/ ) caso ela não saiba o que fazer para ajudar. Na verdade, você pode iniciar a conversa mostrando esse link para ela e dizendo algo como: “estou passando por isso...”.

Posso contar com você? Escrevi esse texto especialmente para ajudar a pensar em algumas estratégias que podem ser úteis porque sei, pela minha experiência e pelas pesquisas que existem na área da Psicologia, que SUICÍDIO NÃO É UMA SOLUÇÃO e que EXISTEM OUTRAS SAÍDAS BASTANTE EFICAZES. Me ajude também a espalhar essa mensagem?

 

Esequias Caetano ([email protected]) é Psicólogo (CRP 04/35023), Especialista em Psicologia Clínica (ITCR/Campinas) com treinamento intensivo em Terapia Comportamental Dialética (Behavioral Tech/ Seattle) e cursa Pós-Graduação em Neurociências e Comportamento pela PUC/RS (Porto Alegre).