Parem de fotografar e filmar pessoas mortas em acidentes!

Uma crônica opinativa do jornalista Caio Machado sobre a prática de compartilhar imagens de tragédias nas redes sociais.

Caio Machado
12/02/2019 - 14h41

Parem de fotografar e filmar pessoas mortas em acidentes!

Ricardo Boechat foi mais uma vítima da neglicencia humana. O jornalista que estava em Campinas para realizar uma palestra fretou um helicóptero de uma empresa que não estava apta a realizar o serviço de táxi aéreo. Qualquer semelhança com o trágico destino das barragens mineiras que dizimaram Bento Rodrigues e Brumadinho, ou com o incêndios da Boate Kiss em Santa Maria e do CT do Flamengo no Rio de Janeiro, não são meras coincidências.

A falta de fiscalização e a irresponsabilidade das pessoas que só visam lucros e sempre dão um jeitinho de driblar as leis, é mais assassina do que qualquer guerra. Os empresários não se importam o bastante, pois pensam a curto prazo, levando em conta apenas a expectativa de vida própria e o quanto poderão enriquecer em vida. Que se dane o que acontecerá depois dos 70-80 anos que eles viverão. Quantas tragédias mais teremos que presenciar e vivenciar até algo concreto seja feito?

A neglicencia começa nas coisas pequenas. No troco a mais que poderia ser devolvido, no Windows pirata que o sobrinho instalou no computador, no caixa rápido de até 15 volumes ou na fila preferencial que você não deveria estar, na cola da prova de geografia, no dinheiro roubado na carteira do avô, no imposto de renda sonegado, na licitação superfaturada, no caixa 2 milionário, e no resto todo que define o cotidiano do país. O “jeitinho brasileiro” que passou da hora de ser chamado apenas de “desonestidade”.

Aqui na cidade, por exemplo, as pessoas julgam estar acima da lei e acham errado quando são multadas no trânsito devido ao asfalto estar esburacado. Acho que elas pensam, “vou andar acima do limite da velocidade e se alguém reclamar, eu culpo o prefeito, os buracos, etc.”. Pela lógica, um asfalto de péssima qualidade, como o nosso, requer menos velocidade e mais cuidado. Mas na cabeça do patense, se algo está errado, não tem problema se ele cometer uma infração. É quase uma moeda de troca do mau-caratismo.

Não pensem que estou defendendo políticos. Ando pra cima e pra baixo na cidade numa scooter com rodas de 14 polegadas e minha coluna almeja bastante trafegar por um asfalto liso e sem buracos. A culpa de tudo isso é do atual prefeito, do anterior, das gestões do PT, PSDB, PMDB e atuais PSL e NOVO, minha, sua, dele e dela. A culpa é de todo mundo, pois não cobramos o bastante, não queimamos veículos na rua como os franceses fazem quando arquitetam revoluções e preferimos entrar no Facebook e xingar os amigos de petralha ou bolsominion e afundar no estresse, mal estar e até mesmo depressão.

Nos esquecemos de quem são nossos verdadeiros heróis para endeusar políticos de quinta categoria, de baixo escalão e da pior estirpe que sequer deveriam estar lá para nos representar. Ontem mesmo a vendedora Leiliane Rafael da Silva, de 28 anos, salvou o motorista do caminhão atingido pelo helicóptero ocupado pelo Boechat e não teve 1/10 dos holofotes que o jornalista argentino teve. Claro, ele teve uma sólida carreira de cerca de 40 anos na imprensa, era extremamente competente, crítico e carismático. Ninguém esperaria que os jornais realizassem reportagens de 50 minutos sobre a trajetória de Leiliane. Não teria a mesma audiência ou significado...

Em meio a esse trágico ocorrido, algumas pessoas insistiram em tornar pior o que parecia ser impossível, ao filmar os escombros e corpos em chamas do fatal acidente no rodoanel na zona oeste de São Paulo. Os smartphones são invenções maravilhosas e extremamente facilitadoras, mas as pessoas parecem não estar preparadas para utilizá-los no dia a dia. A exacerbação do ego, promovida em redes sociais como Instagram e Facebook parece ter desenvolvido um novo tipo de transtorno nas pessoas.

É quase impossível se deparar com algum usuário do WhatsApp que não tenha recebido pelo menos um vídeo ou imagem de pessoas mortas em acidentes, homicídios, dentre outros. As pessoas estão tão condicionadas a relatar e exibir os acontecimentos (por mais triviais que sejam) nas redes sociais, que deixam de prestar socorro, apenas para compartilhar o momento a troco de curtidas e repercussão. O humanismo está sendo deixado de lado para ser trocado por algoritmos lucrativos, corações, carinhas e polegares pulsantes em telas de LCD.

Não dá pra culpar o ser humano por agir assim. Ninguém recebe um código de ética ao comprar um iPhone ou contratar uma operadora ou serviço de internet. Mas caramba, cadê o bom senso? Um leve exercício de se colocar no lugar dos familiares das vítimas já seria o bastante para perceber que filmar um cadáver mutilado não seja exatamente a coisa certa a se fazer. Na obra “O cuidado devido aos mortos”, Santo Agostinho afirma que “Necessário é, por conseguinte, que se tenha pelo corpo do próximo o cuidado que ele não pode mais se dar ao deixar esta vida”. Acho que ninguém em sã consciência gostaria de ter uma imagem do próprio corpo estraçalhado circulando pela internet...

Como jornalista, posso atribuir parte dessa culpa à mídia sensacionalista que sobrevive da tragédia e do sangue alheio. Porém espetaculizar a violência precede Cristo e no decorrer dos séculos, o ato se reinventou em arenas de gladiadores, seguido por criminosos sendo guilhotinados e simultaneamente ovacionados por plateias, sendo capitalizada em ringues de boxe e outras lutas sangrentas, e por aí vai. O próprio desejo de parte da população brasileira de que a pena de morte seja instaurada, é uma prova de que a violência é considerada um recurso palpável e que ironicamente remeta à uma sensação de segurança. É uma grotesca mistura da Lei de Talião, de que olho é pago por olho, com os estudos de Michel Foucault de que as práticas punitivas são deveras exageradas.

Ainda como comunicador, devo dizer que o ato do cidadão comum - diga-se, sem formação em Jornalismo - , de atuar como jornalista ao registar e noticiar tudo, com a facilidade e pluralidade possibilitada pelos smartphones e conexões de internet em qualquer lugar do globo, é uma faca afiadíssima de dois gumes. Se por um lado a onipresença dos celulares garante com que nada passe batido pelas pessoas, a incapacidade das mesmas de proceder em situações trágicas prejudica o trabalho jornalístico e coloca de lado os aspectos éticos ao se noticiar um fato.

Por mais que seja o fator norteador do trabalho de apuração jornalística, a imparcialidade é utópica. Qualquer fato narrado por alguém carrega a perspectiva e experiência da mesma. Uma pessoa enxerga um fato diferente de outra. A coleta de informações e o percurso para que isso se torne uma reportagem ética e responsável, faz toda a diferença. E este papel é quase exclusividade para jornalistas qualificados. Não estou me queixando das colaborações frequentes de leitores, mas sim cobrando por mais sensatez. Afinal, imparcialidade é inalcançável, o bom senso, não! Parem de fotografar e filmar pessoas mortas em acidentes!

Foto: Bruno Pires