Crônica: A fábrica de carapuças

Uma crônica fictícia sobre o cotidiano patense que poderia facilmente ocorrer durante o período chuvoso e esburacado de fim de ano.

03/12/2018 - 16h22

Crônica: A fábrica de carapuças

- Amor, vamos no supermercado comprar feijão preto. A mãe disse que vai fazer feijoada.
- Vou pegar a moto ali, mas tem que ver no grupo se tem blitz, o IPVA tá atrasado ainda.
- Já parou de chover, dá pra ir.
- O pessoal mais cedo disse que tinha uns PMs perto da Tomaz de Aquino. Tá de boa.
- Amor, tem guardinha ali, fecha a viseira!
- Ainda bem que eles usam esse colete feio, dá pra ver de longe. Essa cidade virou uma fábrica de multa mesmo.
- Vai parar aqui mesmo?
- Tá escrito não estacione moto, mas é rapidinho, entrar ali no local das motos dá trabalho demais...
~ Moça, só tem mais esse pacote de feijão?
~ Vou ver no estoque, espera aí.
- Pega amor, aproveita que o cara seguiu a atendente e deixou o feijão preto aqui!
- É mesmo né? Fim de mês as mercadorias acabam rápido. Ele não pegou porque não quis.
- Vou aproveitar e comprar o que tá faltando lá em casa.
- Nossa, essa fila tá lotada!
- Fica nessa aqui, que eu fico na outra.
- Mas essa é pra mais de quinze volumes...
- Tem dezoito coisas aqui, não dá nem diferença, vem pra cá, liberou!
~ Crédito ou débito?
- Débito por favor.
~ Saldo insuficiente...
- Passa cinquenta no débito e trinta no crédito, tem como?
- Acabei de olhar no zap. Mamãe pediu pra comprar abobrinha também.
- Já foi, tô sem grana… Ih, algum corno colocou a moto na frente da minha, vou ter que passar por cima da calçadinha! Esse supermercado é uma bagunça mesmo.
- Amor, o sinal abriu, para de olhar a bunda da moça.
- Não tô olhando na... Puta merda e esse buraco!
- Ixa, meu bem, furou o pneu, eu acho...
- Mas que bosta dessa cidade, tá impossível! Caramba! Ainda bem que a borracharia é logo ali.
- Bebê, vou descer a pé, e levar as compras pra mãe.
- Tchau mô.
- Até mais tarde!
- Amigo, caí numa cratera ali, pneu furou e se brincar quebrou uns raios da roda.
~ Você já é o terceiro que vem aqui hoje por causa disso.
- Tá foda demais, a gente paga IPVA pra nada né?
~ Tempo de chuva né. É assim mesmo... Então, o pneu eu colo pra você, mas o raio você tem que consertar na oficina logo ali perto da rotatória.
- Entendi, vai ajeitando aí que eu mesmo levo a roda lá, preciso dela com urgência.
~ O raio entortou também. Consigo arrumar, mas vai só quebrar um galho. Essa moto sua é antiga, pra achar isso aqui é só no ferro velho, mas parece que fecharam todos, né?
- Eu vi, parece a galera tava vendendo peça roubada... Ano que vem essa bandidagem vai acabar!
~ Aham. Então, o serviço foi trinta reais, quer pagar como?
- Passa cartão?
~ Chefe, deu saldo insuficiente.
- Ah é, então… eu moro logo ali, vou lá buscar e já volto. Me dá a roda aí, que eu já levo pro rapaz ajeitar com o pneu. Já já estou aqui.
~ Beleza, chefe.
- Deu certo, meu rei?
~ Sim, colei o pneu belezinha.
- Deixei o dinheiro lá com o rapaz da oficina, ele disse que ia te passar.
~ Sem galho, amigo. Se precisar de alguma coisa é só voltar aqui!
- Amor, cheguei! Cadê o dinheiro que tava na caixinha?
- Peguei pra comprar a abobrinha e umas outras coisas pra mãe, por quê?
- Ah… nada não, vou ali tomar banho, me sujei todo empurrando a moto...
- Tá bom, amor. Quando você sair a feijoada já vai estar pronta!

Texto: Caio Machado
Imagem: Bruno Pires