Manual de como enganar patenses (ou deixar de ser enganado)

Não se assuste com o título desta crônica. O objetivo central do texto é informar e dar dicas de como se esquivar do poder de manipulação das fake news.

04/09/2018 - 15h56

Manual de como enganar patenses (ou deixar de ser enganado)

Na noite de 30 de outubro de 1938, cerca de meio milhão de norte-americanos entraram em pânico ao ouvir uma transmissão de rádio da CBS que relatava uma invasão alienígena no estado de Nova Jersey. Linhas telefônicas congestionaram, malas foram feitas às pressas e boa parte dos ouvintes deram no pé no intuito de fugir da iminência extraterreste.

Quem ouviu a transmissão do começo foi informado que aquilo se tratava apenas de uma dramatização da obra “A Guerra dos Mundos” do escritor britânico H. G. Wells. A peça foi narrada pelo cineasta Orson Welles, que três anos depois ficaria eternizado na história do cinema após dirigir e estrelar o clássico “Cidadão Kane”, considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, até hoje!

Citei este exemplo apenas para demonstrar como um meio de comunicação pode ser arrebatador se utilizado “indevidamente”. Nem Welles imaginaria que oitenta anos depois, o mesmo estrago poderia ser feito com muito menos esforço por meio da internet e sequer precisaria apoiar-se numa obra literária para movimentar um grande número de pessoas a agir de forma, no mínimo irracional.

Neste último fim de semana começaram a circular pelo WhatsApp alguns áudios não identificados dando a entender que uma nova paralisação dos caminhoneiros teria início a partir do dia 9 de setembro. Após um punhado de compartilhamentos, em menos de 24 horas em Patos de Minas, centenas de pessoas formavam filas nos postos de gasolina para encher os tanques de seus respectivos automóveis.

Neste meio tempo, além dos áudios de procedência duvidosa, até uma suposta nota da Polícia Rodoviária Federal (PRF) começou a circular reforçando a ideia de que a greve realmente aconteceria. O documento não possuía autoria e nem assinatura e foi desvalidado minutos depois pela própria PRF. Reforçando a falta de credibilidade das informações, diversos jornais do país noticiaram que o fato era apenas um boato.

Mesmo assim, várias pessoas foram ludibriadas pelos áudios e mensagens e correram até o posto mais próximo para garantir combustível. Alguns jornais da cidade noticiaram os rumores, mas não foi o bastante para que litros e litros de combustíveis acabassem em várias bombas da cidade. Não demorou nada para que memes surgissem nas mesmas redes sociais ridicularizando as pessoas que foram abastecer os carros. Os áudios de humor relatavam a paralisação de refinarias de açúcar, fábricas de calçados e até mesmo restaurantes, sugerindo que os patenses corressem para compra-los antes que tudo chegasse ao fim.

Como explicar a facilidade de enganação das pessoas e o fenômeno das fake news no período de maior facilidade de acesso à informação da história?

Eu particularmente encontro dificuldades em encontrar motivação para continuar atuando numa profissão em que jornais centenários, alguns deles com lendas vivas ainda atuantes em suas redações, perdem a credibilidade e competem com notícias falsas sustentadas por montagens grotescas, áudios e textos sequer identificados, informações descontextualizadas e manipuladas, num cenário que até mesmo memes e peças de humor são levadas a sério.

A fabricação de notícias e manipulação de dados não começou nesta década e sequer neste século. Como exemplo, temos inúmeros registros de montagens feitas em fotos da Segunda Guerra Mundial e se levarmos em conta a história do Brasil retratada por pinturas, nos deparamos com curiosos quadros em que o inconfidente mineiro Tiradentes é pintado à imagem e semelhança de Jesus Cristo, numa tentativa de romantizá-lo, bem como ocorre no famoso “Grito do Ipiranga” de Pedro Américo, que retrata a nada glamorosa e heroica independência do país, assemelhando-se à grandiosa revolução francesa ilustrada na obra ”A liberdade guiando o povo” de Eugene Delacroix.

E se no passado isto acontecia visando o revisionismo histórico ou algo do tipo, hoje temos o fenômeno que o filósofo baiano Wilson Gomes chama de “negacionismo histórico”. O termo cunha nada menos do que “uma revisão mal-intencionada dos registros da história para fins políticos ou ideológicos”, nas palavras do próprio autor. Não é de hoje que presenciamos um saudosismo um tanto quanto duvidoso da ditadura militar na internet, onde uma mão invisível tenta passar uma borracha sob as câmaras de torturas do DOI-CODI, DOPS e de outros horrores da época.

A distorção dos fatos desta época se tornou uma ferramenta eleitoral para o fortalecimento de candidatos como Bolsonaro e outros mais de extrema direita. Logo, as fakes news não se limitam apenas à criação de fatos, mas também da tentativa de moldar o passado para sustentar ideologias e anseios do nosso presente. Antes deste texto ser tratado como partidário ou imparcial, não esqueçamos que todo o espectro político fabrica notícias falsas. Quem não se lembra da constante ladainha da esquerda de que o juiz Sérgio Moro foi treinado pelo FBI ou da pungente e cansativa tentativa do PT em endeusar a figura do ex-presidente Lula, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Voltando à Patos de Minas, nas últimas semanas fomos surpreendidos pela notícia de que um empresário patense disputaria as eleições presidenciais. De imediato, cético como sou, acreditei que se tratava apenas de um boato, mas ao checar os fatos, pude averiguar que aquilo era concreto, diferentemente da notícia falsa da morte do ex-prefeito Pedro Lucas Rodrigues, divulgada meses atrás em um grupo de classificados do Facebook.

Mas como saber o que é verdade e o que é mentira? A minha primeira dica é a de analisar e pensar duas vezes sobre o que é compartilhado pelas redes sociais. Não custa nada reler o fato, ouvi-lo novamente com cautela e, antes de tudo, imaginar se aquela informação é cabível ao nosso contexto. Claro que ninguém vai acreditar em extraterrestres em pleno 2018 e que a paralisação dos caminhoneiros é realmente crível, visto que o diesel realmente sofreu um reajuste, porém se ninguém se identifica e se nenhuma autoridade se posiciona sobre determinado assunto, é melhor duvidar.

Minha segunda dica é consultar o Google e isto é muito mais simples do que parece. Quem chegou na internet agora a pouco, pode ainda não estar familiarizado com a ferramenta de busca, mas em menos de cinco minutos dá pra descobrir se a notícia recebida é ou não é uma inverdade. Este site pode salvar vidas, além de ser didático, útil e extremamente prático para sanar qualquer necessidade e dúvida existente na face da terra.

A minha terceira e última dica é conhecer sobre a história dos jornais brasileiros, principalmente a dos veículos locais. Feito isto, passe a segui-los com frequência e escolha aqueles com que você mais se identificar com a linha editorial. A “Folha de S. Paulo”, por exemplo, está prestes a completar 100 anos, e o “Estadão” já beira os 150! Em Minas Gerais, o “Estado de Minas” fez 90 anos e os recentes “Hoje em Dia” e “O Tempo” já ultrapassam os 20 anos de existência.

Aqui na cidade, o impresso “Folha Patense” perdura por 26 anos. A “NTV”, que coexiste nas ondas da rádio pela “Nossa FM” e pela web no “Patos Já”, está na ativa há 27 anos. O “Patos Notícias” está prestes a completar 12 anos e o site mais acessado da cidade, “Patos Hoje”, também já soma uma década de existência. Deixei vários outros exemplos de fora, mas ressalto que a longevidade de um jornal, na maioria das vezes está associada à credibilidade. Conhecendo a história e trajetória destes jornais fica muito mais fácil derrubar e descreditar as fake news.

Recentemente o Facebook reforçou as políticas contra proliferação de notícias falsas e chegou a deletar páginas de filósofos renomados como Olavo de Carvalho e de grupos políticos como o Movimento Brasil Livre (MBL), - este último comprovadamente um dos maiores fabricantes de notícias falsas do país! - por quebrarem regras neste sentido da rede social. O WhatsApp por sua vez, passou a destacar como “Encaminhado” as mensagens repassadas por terceiros no intuito de ajudar a identificar correntes e afins. Não que isto será de grande ajuda, mas é melhor do que nada...

É preciso fazer a nossa parte e não sair repassando tudo que receber nas redes sociais ou repetindo discursos aleatórios e construídos na internet! Outra sugestão é guardar para si próprio, opiniões que não sejam mais do que meros achismos ou reproduções de algo que foi lido por aí aos quatro cantos da internet. Nestes casos, o que dá consistência à inverdade, é a própria inconsistência! Muito do que é fabricado surge como ferramenta política ou mera sacanagem da qual o cidadão deve protagonizar-se ao combate. Não seja o mero bucaneiro incumbido de colocar a pólvora no canhão do navio e nem mesmo o papagaio aloprado no ombro do pirata!

Texto e fotos: Caio Machado