Temos tempo de sobra e sempre estamos ocupados

Uma crônica reflexiva sobre como o mau uso das redes sociais e da tecnologia nos faz acreditar que estamos sempre sem tempo.

31/07/2018 - 14h43

Temos tempo de sobra e sempre estamos ocupados

Um conhecido meu aqui da cidade começou a escrever um blog que na maioria dos textos, cita a volatilidade dos relacionamentos das pessoas. Basicamente evidenciando a superficialidade em que nos encontramos imersos. De tanto ler os artigos e após passar pela traumática ruptura de uma atividade que estava realizando com alguns amigos, notei que as pessoas vivem dizendo que não possuem tempo para fazer mais nada. Poxa, e não é verdade? Estamos todos atarefadíssimos com nossas vidas. Será mesmo?

A resposta é não. Nunca tivemos tanto tempo quanto temos agora. E não precisa de muita reflexão para chegar a esta conclusão. Bem como ao fato de que nos tornamos mais egoístas do que nunca e a culpa de tudo isto é do mau uso da tecnologia e em específico, das redes sociais. Ou vai me dizer que você leitor, não perde dezenas de horas diárias abrindo conteúdos irrelevantes no WhatsApp, da mesma maneira que consome e reproduz tudo que realiza no dia pelas histórias e postagens infindáveis do Instagram...

Numa galáxia não muito distante, apenas um familiar possuía uma câmera fotográfica e registrava todas as festinhas de aniversário e casamentos. Os retratos eram meticulosamente pensados, e as 36 poses no rolo do filme bastavam para manter a lembrança dos momentos mais importantes e o melhor de tudo, ainda sobrava tempo para aproveitar o momento. Ninguém ficava na mesa respondendo WhatsApp e curtindo fotinhas aleatórias. Lembro-me que revelar as fotos e coloca-las nos álbuns também fazia parte do ritual sagrado da escrita da luz. Emoldurar as fotos era a cereja do bolo. Hoje, felizmente ou infelizmente, o que é visto dura apenas 24 horas ou dois segundos na timeline, antes de arrastarmos a tela com o polegar e irmos para a postagem seguinte.

As lembranças foram banalizadas, mas será que a comunicação básica também? Quando precisamos falar com alguém de nossa convivência ou com aquele parente que mora em Lagoa Formosa ou em qualquer cidade vizinha, ligamos o WhatsApp e mandamos uma mensagem de áudio.  Não precisamos sequer de pegar a agenda de contatos telefônicos, hoje esquecidas em alguma gaveta, para procurarmos os números das pessoas. Decorá-los então, é quase um luxo. E olha que eu nem falei sobre o envio de cartas ou de viagens para reencontrar pessoas. As distâncias foram encurtadíssimas pela internet e algumas crianças nunca saberão o que é rasgar um envelope e se emocionar.

Se o assunto é noticiário, abra o navegador do celular e entre nos jornais de sua preferência (Por favor, faça isso, não se informe ou acredite em tudo que receber pelo WhatsApp, que na maioria das vezes, é simplesmente fake news, a sociedade agradece!). Quantas bancas de revistas sobraram em Patos de Minas? Três? A da rodoviária, a da Getúlio Vargas e a do Shopping? Um dia desses um primo meu me ligou desesperado em busca de jornal velho, porque iria pintar a casa em que havia se mudado e precisava forrar o chão. Você acha que ele conseguiu fácil? Ninguém mais lê jornais impressos e revistas como liam antigamente.

O Gorillaz lançou um disco novo no mês passado e pra escutá-lo a qualquer momento é só abrir o Youtube, o Spotify ou o Deezer. Essa banda virtual mudou o fim da minha infância e começo da adolescência. Lembro que em 2001 eu precisava ficar de ouvido em pé nas ondas da Clube FM pra conseguir gravar Clint Eastwood numa fita K7 se eu quisesse ouvi-los mais de uma vez. Com muita dificuldade eu conseguia comprar um CD, porque o original beirava os cem reais, que poxa, era dinheiro pra burro na época. Em pleno 2018, com todas as músicas do planeta a um clique de distância, eu ainda nem ouvi o disco novo deles... Provavelmente nem irei!

Tá, mas e quando o assunto é cinema ou as séries gringas do momento? Lembro quando a gente acordava cedo nas manhãs de domingos para assistir The O.C. e Smallville no SBT. Ou até mesmo madrugava para ver o George Clooney no Plantão Médico. Com o Netflix, HBO Go, Prime Vídeo e todos os serviços de streaming é só ligar o computador ou instalar os aplicativos nos smartphones e maratonar tudo. Sequer é necessário esperar uma semana passar para ver o episódio seguinte. As videolocadoras morreram e a pressão das séries é tanta que a própria Globo criou a sua própria versão fuleira do sucesso Game Thrones. Deus salve o rei! Pelo menos os cinemas foram salvos, mas a Super Video e todas as locadoras de Patos de Minas, infelizmente não!

Não vou nem entrar no mérito das pessoas correrem atrás de livros, porque o formato PDF e os leitores de livros digitais não emplacaram tanto. Assim como os livros nunca foram lá a preferência dos brasileiros. Mas poxa só de ter a possibilidade de não precisar carregar cinco calhamaços na bolsa e substituir por um Kindle, proporciona além de comodidade, uma maneira muito eficaz de poupar tempo. E sim, as livrarias patenses foram extintas. Que sentimento bom era passar na Galeria Martins e ficar almejando o lançamento mais novo da série Harry Potter na vitrine da Literartes.

A vida nunca esteve tão fácil e as pessoas nunca alegaram estarem tão ocupadas como estão agora. E olha que eu me limitei apenas em exemplificar as formas de se comunicar e de se obter entretenimento. Não citei a comodidade de pedir comida, comprar o que quiser em qualquer lugar do mundo e pagar contas pelo próprio celular. Minha escrita pode parecer saudosista, e de fato é, mas caramba, pense duas vezes antes de dizer para alguém que você anda sem tempo.

Texto e fotos: Caio Machado